Orkut, MySpace e Limão, já é possível montar o seu próprio site de
relacionamentos, onde você controla quem terá um perfil, recursos
disponíveis, assuntos debatidos..
Agência Estado
por Rodrigo Martins
Parece uma idéia estapafúrdia? Pois já há quem descobriu que é uma forma de
evitar ruídos de comunicação e até uma evolução da tradicional lista de
discussão.
O "culpado" desse movimento é o serviço norte-americano Ning
(www.ning.com). Criado em 2007, ele permite a qualquer um montar o "seu
próprio Orkut" de forma rápida, fácil e gratuita. Hoje, já são 500 mil
redes sociais, que tratam de temas tão díspares como arqueologia e a série
Lost.
Para a pesquisadora em redes sociais da PUC de Pelotas Raquel Recuero, o
Ning permite resgatar as discussões que ocorriam no Orkut em seus
primórdios. "O Orkut 'inflou' muito. As comunidades perderam o sentido. Só
servem para dizer que se 'ama ou odeia' algo. As pessoas não discutem mais.
Em uma rede social mais focada, sem ruídos ou spam, as pessoas podem
sentir-se mais à vontade para debater."
"O nicho também é um componente importante", diz a especialista em mídias
sociais Ana Maria Brambilla. "As pessoas usam as ferramentas do site para
interagir sobre temas mais focados. Se for sobre futebol, publicam fotos e
vídeos sobre o assunto em seus perfis, o que não ocorre no Orkut."
A idéia do Ning hoje não é fazer as pessoas abandonarem as grandes redes
sociais. Embora permita criar um site em que os usuários podem montar
perfis e até adicionar aplicativos, o intuito é ser uma segunda rede para
assuntos específicos. E esses temas podem ser tanto relativos a um grupo
que já se relaciona no mundo offline como os de interesse de um maior
número de pessoas, atraindo internautas.
No primeiro caso, o servidor público João Alberto Tomacheski, de 38 anos,
criou uma rede social só para os moradores de seu condomínio, que está em
construção. "Discutimos o andamento das obras, o valor do condomínio, etc.
É uma ótima preparação para a reunião de condomínio", diz. "Uma comunidade
no Orkut não traria a mesma privacidade."
Já o webdesigner Oswaldo Salzano, de 30 anos, por outro lado, queria reunir
internautas com a mesma paixão: o Corinthians. Com domínio próprio - e
criado no Ning -, o www.loucoporticorinthians.com tem 50 mil usuários.
"Embora haja comunidades no Orkut sobre o Corinthians com mais membros, em
uma rede específica, as pessoas participam mais." No site, há 60 mil fotos
e 2 mil vídeos. Tudo sobre o "Timão".
Para o executivo Rene de Paula, de 43 anos, o Ning "é uma evolução das
listas de discussão". Ele transformou a sua lista Radinho de Pilha, que
existe desde 2001, em uma rede social. "O nível das discussões melhorou,
pois as pessoas, ao criar perfis, precisam se identificar. E ganhamos em
multimídia, já que é possível postar fotos e vídeos." E aí, já pensou em um
tema para criar a sua rede social?
Na criação, é importante focar tema específico
Criar uma rede social no Ning não é tarefa complicada. O serviço já está em
português e guia o usuário passo a passo em todo o processo. Isso é bom
porque deixa você livre para fazer o mais importante, que é "povoar" e
moderar a rede.
O primeiro passo - e o mais importante - na criação é escolher o assunto da
sua rede social. Se for para membros da sua sala de aula ou de seu
condomínio, não tem erro. Como será um espaço de convivência de uma
comunidade do mundo "real", já há um público alvo bem definido e as
discussões devem girar em torno de questões que esse público já trata.
Agora, se você quer uma rede para reunir interessados em música, por
exemplo, é importante delimitar o tema ao máximo. Não adianta querer
discutir música como um todo. O melhor é focar em uma banda ou em um estilo
específico. "Quanto mais focado, melhor. E o assunto tem de permitir
discussões. Não pode ser para 'pessoas que têm sono após o almoço'. Não
gera discussão", diz a especialista em mídias sociais Ana Maria Brambilla.
Por mais que seja um nicho, o tema também tem de interessar a mais pessoas
do que você e seu amigo. "Tem de fazer sentido para um número considerável
de pessoas. Uma rede social sem ninguém não é rede social", opina a
pesquisadora em redes sociais da PUC de Pelotas Raquel Recuero.
Uma vez que você tenha delimitado o tema, é hora de partir para a criação.
O Ning pedirá que você escolha um nome para o site. Seja criativo e crie um
nome atraente, de fácil memorização. Seu endereço será algo como
nomedarede.ning.com.
O próximo passo é escolher os recursos a que os usuários de sua rede social
terão direito. Há opções para música, foto, vídeo, RSS, grupos de
discussão, fórum, chat e até aplicativos. Para escolher, basta arrastar e
soltar os recursos, colocando-os na posição em que desejar na página. O
ideal é escolher aqueles que tenham mais a ver com o assunto escolhido.
Feito isso, é hora de cuidar do visual de sua rede social. O Ning já traz
59 opções de temas predefinidos, que configuram o papel de parede e a fonte
automaticamente. Para quem deseja criar uma rede que não precise de grande
publicidade, como a do seu condomínio, utilizar essas opções já está bom.
Agora, se você deseja ter uma rede social para angariar internautas
interessados em um tema específico, daí é interessante pensar em
personalizar o layout. O Ning permite escolher a cor e o tipo de fonte e
definir uma imagem como papel de parede ou cabeçalho. Para tanto, a imagem
do cabeçalho deve ter o tamanho de 1.500 x 149 pixels. Já para o papel de
parede, deve ter a largura de 1.500 pixels.
Segundo o analista de sistemas Julio Donati, de 26 anos, do
escaladabrasil.ning.com, quando se quer conquistar os internautas, um
layout bacana faz diferença. "Assim, cria-se uma identidade visual para o
site. Ele fica com uma cara menos genérica e atrai mais as pessoas."
De qualquer forma, nas configurações de criação da rede social, é possível
permitir que os usuários configurem o próprio perfil, mais ou menos como é
feito no MySpace. Eles poderão escolher um dos 59 modelos predefinidos ou
partir para a personalização, definindo cor e tipo de fonte e uma imagem
para o papel de parede.
Privacidade e moderação devem ser preocupações
Como em qualquer rede social - principalmente depois dos problemas que o
Orkut teve com crimes e privacidade - é preciso garantir a segurança dos
dados do usuário. Também é recomendável gastar tempo na moderação para
evitar material inadequado ou discussões que fujam do tema proposto.
No primeiro caso, o Ning traz as seguintes opções para o criador da rede:
permitir que qualquer um - mesmo que não seja membro - visualize todas as
páginas, incluindo perfis e fotos; permitir que não membros vejam só a
primeira página; e permitir que só membros acessem qualquer página.
Além disso, é possível determinar que novos membros se cadastrem só por
convite; que seja preciso a sua aprovação para o cadastro; ou que o
cadastro seja livre.
Para redes com público muito seleto, não há porque deixar aberto. "Já
convidei muitos dos moradores. Quem estiver faltando, é só me pedir que eu
envio o convite", diz João Alberto Tomacheski, de 38 anos, que criou uma
rede social para o seu condomínio. No site, as páginas são só para membros.
Já em redes em que se deseja uma seleção menos rígida, deixar só a primeira
página aberta e aprovar cada cadastro pode ser o ideal. O arqueólogo Diogo
Costa, de 32 anos, na rede Arqueologia Digital
(arqueologiadigital.ning.com), queria só especialistas na área, não
iniciantes. Ele montou um questionário na ficha cadastral para novos
membros - o que é possível no Ning - para a seleção. "É para manter o nível
da discussão", diz. "E só deixo a primeira página aberta para as pessoas
terem curiosidade e se cadastrarem."
Já em sites em que se deseja o maior número possível de pessoas, deixar
aberto - sem convite e com todas as páginas acessíveis a qualquer um - pode
ser uma alternativa. Mas é importante que se avise os membros disso. Eles
até poderão, por conta própria, selecionar que suas fotos e vídeos sejam
vistos só por amigos. Mas, para dados pessoais, não há essa opção.
Não adianta só criar a rede, é preciso garantir que as discussões não se
esvaziem e que não haja conteúdo inadequado. Você não precisa fazer isso
sozinho. É possível "promover" membros de confiança, dando-lhes poderes
para apagar conteúdo e até expulsar membros quando necessário.
"Posto vídeos e notícias para trazer discussões", diz o criador da rede
Louco Por Ti Corinthians, Oswaldo Salzano, de 30 anos. "E seis pessoas me
ajudam a retirar conteúdos inadequados, como pornografia e tópicos que
fogem do tema do site."
Expectativa de crescimento
Lançado em fevereiro de 2007, o Ning chama a atenção pela sua velocidade de
crescimento. A cada 30 segundos, uma nova rede social é criada. No final do
ano passado, eram 150 mil sites hospedados no serviço. Hoje, são 500 mil. E
a perspectiva é chegar a 4 milhões até 2010.
Quem está por trás do fenômeno é um pioneiro da internet e uma investidora
do mercado de ações. Marc Andreesen, criador do navegador Netscape - que
sucumbiu ao poderio da Microsoft nos anos 90 -, e a executiva Gina
Bianchini tiveram a idéia de criar o site em 2004. Os dois, que já foram
namorados, já haviam trabalhado juntos em uma empresa de softwares para
marketing, que foi vendida em 2003.
A idéia por trás do Ning, que demorou três anos para ser desenvolvido, é
aproveitar o aspecto viral da rede para aumentar o número de usuários e,
assim, lucrar com anúncios. Pelas contas dos responsáveis pela rede, em um
mês, cada um que monta uma rede social traz 128 usuários novos para o
serviço para montarem seus perfis. Isso faz com que, a cada 137 dias, o
site dobre de tamanho em número de usuários.
Mas a idéia do Ning é bater de frente com gigantes como Orkut e MySpace?
Não por enquanto. "Os grandes sites já prontos irão se tornar obsoletos",
disse Gina recentemente no MIT, nos EUA. "Isso não ocorrerá hoje, mas as
pessoas no futuro irão preferir ter mais liberdade em um ambiente onde
podem criar."
