quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Desfazendo o mito dos megapixels

Antes de comprar uma nova câmera digital, tenha cuidado: neste mundo
complexo, "mais" megapixels às vezes podem resultar em "menos" qualidade na
imagem. Entenda esta situação
Russ Juskalian / NY Times


Acontece com todos nós: o momento em que descobrimos que mais "megapixels"
e melhores fotos não são necessariamente a mesma coisa. Se ver livre do
errôneo "mito do megapixel" - o equivalente desta década do "mito dos
megahertz" - pode levar um consumidor a uma crise existencial em miniatura.

A descrença, a princípio, dá lugar a uma espécie de auto-questionamento
embaraçoso: "quer dizer que 15 megapixels não é três vezes melhor que 5
megapixels? O modelo deste ano não é melhor que o do ano passado? Gastei
toda aquela grana "atualizando" meu equipamento... para nada?".

O consumidor, em pânico, se vê então diante da escolha entre abandonar de
vez os eletrônicos e se tornar um ludita, ou aprender sobre a tecnologia
por trás das câmeras e tomar as rédeas de suas decisões de compra.

Ao escolher o segundo caminho, ele logo se dá conta de que nem tudo está
perdido. As novas gerações de câmeras digitais e filmadoras, que quase
sempre tem "mais megapixels" ou resoluções mais altas, ainda assim tendem a
produzir excelentes imagens.

Mas há muito mais no sensor de uma câmera digital que a resolução. Entender
o básico pode acabar lhe convencendo que, pelo menos neste ano, comprar o
modelo do ano passado é uma ótima idéia.

De olho nos números certos

Num mar de especificações, uma das mais ignoradas é o tamanho, e não o
número de pixels, do sensor de uma câmera. Sensores maiores geralmente
levam a pixels maiores, o que resulta em algumas vantagens na hora de
capturar uma imagem.

A mecânica disto tudo pode ser melhor compreendida imaginando o sensor de
uma câmera digital como uma bandeja coberta de milhões (daí o "mega") de
pixels cilíndricos, como se fossem copos. Fótons (partículas de luz) passam
através da lente da câmera e são "capturados" pelos copos na bandeja. Cada
copo pode ser vermelho, verde ou azul (as três cores que formam a base para
todas as outras). Quanto mais fótons um copo captura, mais brilhante é sua
cor. Copos totalmente vazios são pretos, totalmente cheios são brancos.

Pixels (ou copos) maiores, com superfícies maiores, capturam mais fótons
por segundo, o que na linguagem dos eletrônicos significa um "sinal mais
forte", e na linguagem das câmeras significa "menos ruído e cores mais
limpas". Pixels maiores também capturam mais fótons por exposição antes de
encher, então são capazes de manter sua cor por mais tempo e não
"esbranquecem" tão rapidamente quanto os pixels menores.

Como o tamanho do sensor nas câmeras compactas não aumentou muito, mas a
quantidade de pixels sim, o único modo de conseguir isto é usando pixels
menores. Por esta razão, geralmente não vale a pena pagar um extra pelo
último "rei dos megapixels", diz Phil Askey, editor do site dpreview.com,
especializado em fotografia digital.

"Quando você vai além dos 7 ou 8 megapixels em uma câmera compacta, as
lentes pequenas já não estão aguentando o tranco", diz Askey. "E você está
colocando tantos pixels em um sensor tão pequeno que o ruído começa a virar
um problema de verdade. Começamos a nos preocupar com isso em 2006, mas de
lá pra cá só piorou".

A mesma coisa se aplica a câmeras DSLR (Digital Single-Lens Reflex). De
fato, testes recentes conduzidos no site dpreview.com chegaram à conclusão
de que fotos tiradas com a nova Canon EOS 50D (US$ 1.400), de 15
megapixels, "mostram visivelmente mais ruído de cor e de luminância", e uma
faixa dinâmica ligeiramente menor, que um modelo mais velho, a Canon EOS
40D (US$ 920).

Como uma forma de visualizar quão "densos" os sensores se tornaram, o site
de Askey fornece informações sobre a densidade de pixels e tamanho do
sensor de mais de 1.200 modelos de câmeras digitais. E embora Askey avise
que os compradores não devem tomar decisões com base em um único número,
estes dados podem ajudar a colocar suas opções em perspectiva, junto com
análises mais detalhadas da qualidade de imagem.

Se você está à procura de uma DSLR semi-profissional (uma câmera para o
consumidor doméstico mas com a qualidade e recursos de um modelo
profissional) que minimize os problemas de ruído, dê uma olhada na Canon
Rebel XSI (US$ 600), Canon 40D (US$ 920), Nikon D80 (US$ 640) e a Nikon D90
(US$ 1.000).

Estimulando seu lado profissional

Outra vantagem de um sensor grande é a habilidade de produzir imagens onde
apenas uma pequena porção da cena está em foco, um efeito popular na
fotografia profissional. Entender a fundo como isto funciona é coisa para
quem tem diploma em física, mas no geral câmeras com sensores pequenos
tendem a produzir imagens onde praticamente toda a cena parece estar em
foco. Este é o principal motivo para que, em situações normais de
fotografia, as imagens produzidas por câmeras domésticas pequenas e DSLRs
sejam tão diferentes.

A má notícia é que você provavelmente vai precisar de uma DSLR para chegar
à profundidade de campo "rasa" o suficiente para atingir o efeito desejado.
A boa notícia é que você pode conseguir este visual profissional mesmo com
as câmeras DSLR mais baratas, e elas costumam ser relativamente pequenas.

Se você insiste em uma câmera compacta, suas únicas opções são a Sigma DP-1
(US$ 700), que o colunista de tecnologia David Pogue elogiou pela qualidade
de imagem, mas criticou em todos os outros quesitos, a nova Panasonic
DMC-G1, sobre a qual Pogue teve opiniões similares, e a recém-anunciada,
mas ainda não testada, Sigma DP-2.

Se você procura por uma câmera pequena que possa produzir imagens com pouca
profundidade de campo, bons modelos incluem a Canon Rebel XS (cerca de US$
150 com lente), Nikon D40/D40X (cerca de US$ 450 com lente) e a Olympus
E-420 (US$ 460 com lente).

A habilidade ainda é importante

Embora alguns especialistas acreditem que o ritmo da inovação no mundo da
fotografia digital diminuiu, é sempre bom lembrar que na tecnologia as
regras de hoje são os anacronismos de amanhã. Mas não importa quando o
próximo avanço na fotografia digital virá, o velho provérbio que diz que o
fotógrafo é a parte mais importante de uma boa foto sempre será verdade.

Leve em conta o caso do premiado fotógrafo Alex Majoli, conhecido por fazer
fotos de guerras e outras imagens dramáticas para publicações como a
National Geographic e a Newsweek - usando câmeras digitais compactas.

Ou tenha em mente as palavras críticas de Ansel Adams: "a incrível
facilidade com a qual podemos produzir uma imagem superficial
frequentemente nos leva ao desastre criativo."